Guia editorial

Curitiba além do planejamento urbano: identidade cultural em disputa

A cidade modelo tem lacunas que o mito modernista prefere ignorar.

Cena de rua no Largo da Ordem, Curitiba, sob luz quente da tarde

A narrativa oficial de Curitiba é conhecida: biarticulados, parques lineares, IPPUC, Jaime Lerner. É uma narrativa real, mas incompleta. O que ela tende a omitir é que o mesmo período de consolidação urbana que produziu esses projetos também deslocou comunidades inteiras das áreas de influência do planejamento, apagou territórios culturais periféricos e construiu uma identidade cívica que beneficiou desproporcionalmente residentes do chamado “anel central” da cidade. Grupos de pesquisa da UFPR documentaram ao menos quatorze remoções compulsórias entre 1971 e 1992 sem indenizações documentadas. Esses dados raramente aparecem nas versões turísticas da história urbana curitibana.

Hoje, coletivos culturais como o Mercado de Pulgas do Largo da Ordem, a Cena Alternativa do CIC e grupos de street art dos bairros Uberaba e Cajuru estão reescrevendo essa narrativa de baixo para cima. Não pela negação do legado urbanístico, mas pela exigência de que ele seja lido com mais honestidade. A pergunta que esses grupos fazem é direta: planejamento urbano para quem? É uma pergunta que merece resposta mais sofisticada do que “para todos”. Curitiba tem 1,9 milhão de habitantes. O modelo funciona de maneira muito diferente dependendo do CEP em que o senhor acorda.